Sexta-feira, Novembro 14th, 2008

Por causa de uns cabritos

Era uma vez um homem. Era uma vez uma mulher.

Encontraram-se, agradaram-se um do outro e vai daí casaram-se.

Esta história começa onde as outras acabam. Mas há mais para contar.

A mulher levou para a casa nova uma cabrinha de que nunca se apartara. O homem levou um bode, que sempre lhe fizera companhia.

Já se vê que a cabra e o bode apreciaram a ideia. Meses depois nasceram cabritos.

– Vou vendê-los no mercado e com o dinheiro que ganhar quero comprar umas coisa para mim – disse o homem.

– E para mim? – perguntou a mulher, fazendo cara feia.

– Para ti? – admirou-se o homem. – Os cabritos pertenciam-me. A tua cabra, quando veio cá para casa, não tinha cabritos.

O meu bode é que lhos fez.

Portanto, os cabritos pertencem-me. Posso fazer deles o que eu quiser.

Não era este o ponto de vista da mulher. Quando há pontos de vista opostos, há discussão. Às vezes, a discussão escorrega para zanga. Foi o que aconteceu.

Fizeram mais barulho do que deviam e os vizinhos foram queixar-se ao juiz. Ele, que sabia julgar, que decidisse daquele caso.

O juiz, um rapaz novo e bem disposto, ouviu a história, pensou um bocadinho e disse:

– Eu hoje não posso tratar desse caso, porque tenho de ir avisar a minha mãe de que o meu pai deu à luz um bebé.

Ficaram todos muito espantados. Depois, desataram a rir.

Quando o dono do bode ouviu a resposta do juiz também se riu. E a mulher com ele. Aliás, ela ainda se riu mais.

Estava tudo esclarecido.

Tempos depois, na casa do homem e da mulher que por pouco não fora abaixo por causa de uma discussão de cabritos, nasceu um menino.

Dos dois, já se vê.


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