Sexta-feira, Outubro 17th, 2008

Oficina dos Brinquedos de Natal

Começa num sótão de uma velha casa a história que vamos contar. De uma mala entreaberta sai uma vozinha queixosa:

- Está frio, hoje! A quantos estamos?

“Talvez   em   Dezembro”,   “Parece-me   que   em Novembro…”, “Não sei se em Janeiro…”, respondem várias vozes estremunhadas.

- O cuco do relógio sabe. Dêem-lhe corda que ele diz – lembra outra voz mais esperta.

Da mala entreaberta sai um ursinho cor de canela, mas um pouco descorado. Espreguiça-se, volta a espreguiçar-se e trepa custosamente a em escadote.

Pendurado na parede e parado está o relógio de cuco, que já se não usa. O que se não usa está usado ou estragado, no sótão fica guardado.

- Não trabalho, mas faço contas de cabeça – diz de lá o cuco. – Se perco a conta ao tempo, nunca mais me acerto.

- Anda lá, despacha-te, e diz-nos a quantos estamos! – impacienta-se o ursinho de peluche.

- Neste momento são precisamente nove horas, treze minutos e vinte e cinco segundos… Cucu… cucu… cucu…

- O dia, o dia! – exigem várias vozes do rés-do-chão.

- … do dia 24 de Dezembro de… Cucu… cucu… cucu…

-  Véspera  de  Natal,  imaginem  -  e  uma  boneca  de cabelo emaranhado e saia traçada salta de uma gaveta a correr.

- Para onde vais tu com tanta pressa? – pergunta-lhe, do cimo do escadote, o ursinho cor de canela.

- Vou arranjar-me para a ceia. Estou atrasadíssima. Um palhaço amolgado aparece, a piscar os olhos, detrás de uma velha cómoda.

- Vai ver-te ao espelho, boneca tola! – diz-lhe ele.

- Detesto espelhos… – e a boneca põe-se a chorar.

De  caixas,  gavetas  e  arcas  saem  mais  bonecos  e brinquedos. Soldadinhos de espingarda partida, cavalos sem orelhas, macacos de algodão com o algodão à mostra, burros  de  pasta  ratada  e  até  um  carro  de  bombeiros, equilibrado em três rodas, acorrem ao choro da boneca.

- Há novidade? Há fogo, inundação, desastre? É preciso ajuda? – perguntam os bombeiros uns aos outros.

O palhaço amolgado tranquiliza-os:
- Nada disso. É ela que não se conforma e não acredita que já ninguém a quer. Quem precisa de uma boneca velha?
- Pois é. Já não prestamos para nada – comentam os outros bonecos.

Lentamente,  esgaçados  uns,  esbarrigados  outros, rachados uns quantos, regressam às gavetas, arcas, sacos e  caixas…
Estas  conversas  não  adiantam.  Mais  vale dormir.

Mas o urso de peluche, que continua empoleirado no cimo do escadote, fala para a boneca, de forma a que os outros oiçam:
- Estou, daqui, a ver a máquina de costura antiga. No armário há vestidos pendurados, tão velhos como nós, mas
alguns de bom tecido. Lembrei-me de que tu podias…

A boneca limpa as lágrimas e levanta os olhos para o ursinho:
- Que linda ideia! Achas que posso?

Mais brinquedos oferecem os seus serviços.

- De caminho, podias consertar-me a barriga – pede o macaco de algodão. – Estou todo descosido.

- Também me dava jeito que me pregasses as orelhas…

- lembra o cavalo de feltro.

De novo a voz do ursinho de peluche, do cimo do escadote:
- Do meu mirante também vejo latas de tinta, que os pintores, que andaram a arranjar a casa, aqui deixaram.

- Era óptimo para nós – exclamam os soldadinhos de chumbo. – Estamos mesmo precisados de fardas novas.

- E nós! E nós! – ecoam os bombeiros.

- Pregos, martelos e outras ferramentas não faltam, por aí espalhados – grita, cada vez mais alegre, o ursinho de peluche. – Mãos à obra, meus amigos!

Digamos já, para encurtar a história, que aquele sótão, há pouco triste e sonolento, se transformou numa animada
oficina de brinquedos.

- E agora? – perguntam os bonecos, com caras novas e vestidos floridos.

- Agora vamos descer pela chaminé – comanda o urso.

- Já deve faltar pouco para a meia-noite. Que grande surpresa vai ser!

O  pêlo  do  ursinho  de  peluche  está  eriçado  de entusiasmo.

Na manhã seguinte:
- Alfredo, vem ver o que está na chaminé!

- Que é, Noémia? Caiu algum tijolo?

-  Qual  quê,  homem!  Anda  ver.  Caíram  bonecos  e brinquedos do telhado. Foi, com certeza, o Pai Natal.

- O Pai Natal? Na nossa idade?

O senhor Alfredo ficou embasbacado. Imaginem dois amáveis velhinhos, o senhor Alfredo e a dona Noémia,
únicos habitantes daquela casa, a olharem, sem acreditar, para as surpresas reluzentes que o Pai Natal lhes deixou na
chaminé…

- Repara, mulher: aquela boneca não é parecida com a que demos à nossa filha? E aquele macaco? Naturalmente,
caíram do sótão. O soalho deve ter dado de si… Vou lá acima ver.

- Deixa lá isso, agora! Repara que estes brinquedos estão como novos. Parece que o tempo não passou por
eles.

-  Até  é  mal  empregado  que  estejam  lá  em  cima  a estragar-se. E se fôssemos…? – sugere o senhor Alfredo.

- Vamos – responde a dona Noémia.

O senhor Alfredo e a dona Noémia entendem-se por meias palavras, mas nós, nas linhas desta história, temos de
contar as palavras todas. Saibam, pois, que graças aos dois simpáticos velhinhos, transformados, para o efeito, em
ajudantes de Pai Natal, os brinquedos do sótão voltaram a conhecer as mãos macias dos meninos.

FIM


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